29 de setembro de 2014

Nem o café

Tem coisas que nem um café quente resolve. O problema das guerras pelo mundo por exemplo. Café não resolve isso. Mas imagine se resolvesse? Então os chefes de estado estariam numa sala, todos furiosos de mangas arregaçadas, suando pra ver... quem passa o melhor café. Depois um deles ficaria muito mais furioso e jogaria pó de café no outro, daí... pandemônio. Vamos abandonar essa tese. Imagine um problema seu muito sério. Agora imagine uma xícara de café bem grande. Resolveu o problema? Não. Eu já esperava por isso. Tudo bem. As vezes o café não resolve nada. Mas nos ajuda a dar um tempo, dar uma relaxada. Vai por mim. As vezes falta café na vida. Café quente, doce e equilibrado. Vamos imaginar também, que as vezes estamos na corda bamba, e temos que tentar não entornar o café. Você está com um macacão colante vermelho perolado e a platéia está metade rindo, metade roendo as unhas, luzes estão brilhando dentro da sua cara e numa das suas mãos, o café fumegante. Qual é a solução? Você não pode entornar o café, logo, não pode cair. Você, bebe o café! Mas aí você pensa, o café não é o problema. A corda bamba é um problema, este ridículo macacão é um problema e a droga dessa luz piscando, confunde! Mas o café, bom, me deem um crédito, se não tem como sair da corda, bebe o café! Mas vamos pra outra tese. Você está na borda do abismo. Não tem muita solução. Pedra rolando atrás, pedra caindo na frente, penhasco embaixo, desfiladeiro, um terremoto e um enorme cão raivoso no seu encalço, e você sentado numa "English coffee table",  colocando cubos de açúcar aristocráticos no seu café. Bem, o desafio inclui você usar todo o protocolo do chá das cinco. Bom, o que eu quero dizer, é que, da mesma forma que descobrimos um dia que o papai Noel não existe, a vida vai nos desapontar e nós vamos desapontar os outros, e os outros vão nos desapontar e todos juntos ficaremos desapontados e sem jeito uns com os outros. Então vamos ficar de olhar meio franzido pro problema com nossas bocas numa linha reta e vamos estar de coração partido, porque alguns problemas são a própria solução. Não há muito a ser feito, e se fizermos algo, bem, ainda haverá um pouco de tristeza, e o estrago, continuará estragado. As vezes o nosso problema, bem humano isso por sinal, é querer remendar algo que não tem concerto. Tente colocar um remendo no meio de um vestido de ceda! Desfia, esgaça, fica torto, e o problema não é da costureira. E por mais que todos digam que está bom, você ainda saberá que é apenas um remendo. As vezes um problema surge pra nos alertar: "olha, acho que você deveria ir com calma e tomar um cafezinho". Eu bem que gostaria de dizer que tudo tem uma solução. Mas por exemplo, quando magoamos alguém... não é algo que, bom, possamos sentir pelo outro, e o perdão não é como café instantâneo. É um processo onde o café é plantando, regado, podado, colhido, moído, processado, embalado, e fica estocado, até que alguém o tire da prateleira e o importe ou exporte. E as vezes o café não desce. O problema de uma perda. Aquele velho nó na garganta, a tristeza deixa nosso estômago sem vontade de tomar café. Faça um pequeno esforço. Misturar café com algumas lágrimas as vezes faz bem. O que eu posso dizer sobre tudo isso, senhoras e senhores, é que as vezes os problemas genuínos das nossas vidas são como novas diretrizes,  ainda que tentemos de todas as formas resolver, segurar... nós temos que aceitar queridos. Embora seja doloroso, as vezes tudo que se pode fazer é sentar, e tomar um café. Não dá pra ser tudo e ter tudo ao mesmo tempo e escolhas envolvem sacrifícios. Que droga. Não é disso que eu quero falar! Tudo que eu gostaria de dizer é: Não importa o quão grande seja um problema, ou o quanto ele te faça sentir- se pequeno, acuado, triste, sem fome, sem forças... nunca pare antes do final, faça silêncio, mas deixe seu coração batendo, mesmo que à meia vida. Mesmo que tudo a ser feito seja colocar a cabeça entre as mãos e chorar, sente- se e beba o café. As vezes o café não resolve nada. Mas é tudo que nos resta. E eu confesso pra vocês que essa é a primeira vez na minha vida inteira, que eu não sei como concluir um texto e colocar um ponto final, porque tem coisas que mexem com a gente de um jeito invasivo e sem volta, sem solução sabe? Eu fico meio perdida. Acho também, que pela primeira vez na minha vida inteira. Sigo sem conclusão...
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