13 de março de 2015

Um pedaço de nós doces


Ele dirigiu por duas horas e trinta e seis minutos até chegar em casa. Estava chovendo bastante, o bastante pra ele querer se aconchegar diante da lareira. Abriu a porta de casa, as luzes apagadas. Jogou as chaves na bancada de mármore e suspirou. Muitas luzes foram acesas na vida dele. A dela era a mais forte. Ela não estar ali na cozinha com ele, era como um crime contra a humanidade, ficava vazio, sem graça. Ele abriu geladeira e lá estava o pote decorado com melancias, dentro tinha salada de frutas. Havia qualquer tipo de tempestade nos olhos dele, quando ele olhou a Nutella perto do biscoito maizena. E ele lembrava nitidamente de odiar aquele rock que ele agora amava quando ela ouvia, odiava o jeito como ela lhe roubava a caneca de café pela manhã, mas ao mesmo tempo amava, e agora, veja a falta que estava fazendo toda aquela coisa de ser doce, duas horas de trânsito não ajudavam. Ele entrou na sala de estar, acendeu as luzes, e lá estava o porta retrato, ela sorria impecável como uma doce menina, na ocasião, para ele, e vestida de branco. Naquele dia eles se encontraram num altar, e ele deu pra ela um buquê de jujubas que eles dividiram mais tarde naquele mesmo dia. Um dia que valia a pena ser gravado no fundo da retina. Ele enfiou a mão no bolso esquerdo do terno, tinha uma bala. Foram os doces que os uniram. Ele ainda lembrava daquele dia no mercado, os dois pegaram sem querer a mesma caixa de froot loops, ambos sorriam da coincidência, papo vem, papo vai, ele se apaixonou quando ela dividiu com ele a barra de chocolate Duo da Nestlé, e ela bem que amou, quando ele sem "propósito" lhe comprou uma cesta de chocolates sortidos. Ele apagou a luz da sala e seguiu para o quarto, abriu a porta bem devagar. Lá estava ela, seu perfume enchia o ar de doçura, aquela doçura sublime, que não enjoava, mas fazia querer estar perto e aquela saudade, aquele olhar dele de tempestade que haviam nele, eram como uma nuvem de algodão doce, que derretiam toda vez que ela estava ali. Ele tomou um banho, pegou a bala que tinha no bolso e se aconchegou onde mais queria estar.-Boa noite, meu amor...- ela ainda conseguiu dizer- Pensei o dia todo em você...
-Boa noite, querida, também pensei o dia todo em você, te trouxe aquela sua bala preferida.
Ela olhou nos olhos dele, sorriu e o beijou fazendo-o esquecer da amargura do dia, beijo doce feito doce de leite caseiro.
-Amor, você só trouxe uma e eu sei que foi de coração... mas nosso filho, pra nascer doce, vai precisar de mais umas duas ou três...
Os olhos dele, arregalados, mais pareciam duas balas de anis.
-Vamos ter um bebê...
-Vamos sim meu amor, um pedaço de "nós doces".
Duas horas e trinta e seis minutos pra chegar em seu lar doce lar, e tudo até chegar ali valeu a pena, do primeiro sorriso no supermercado até àquele sorriso que ela exibia ao dizer que iria ser mãe do filho dele. Chuva, trânsito, trabalho? Podiam esperar até novo dia renascer. Agora, ele iria ter doces sonhos nos braços de quem mais amava na vida.
Postar um comentário