2 de maio de 2015

Fúria - [série: Ainda sinto o perfume dele]


A maior parte de nós, não é a aparente. É a parte que as outras pessoas sentem. A parte intocável com as mãos. Aquela somente vista, com os olhos do coração. E ela olhava o céu naquela tarde, o céu manchado de cor de abóbora bem além do horizonte, até onde podia enxergar, e uma única estrela brilhando. Ela desejou ter uma máquina fotográfica com a qual ela pudesse capturar o momento, mas se contentou em deixar o trabalho para a memória apenas. O silêncio da noite que se iniciava, fazia com que ela quase pudesse reverenciar os sons da natureza ao seu redor, um grilo cantou não muito longe dali, parecia reger o coro dos grilos que cantaram depois dele. Os pássaros da noite ou qualquer animal que estivesse ali por perto, ela imaginou, ou se preparariam pra dormir, ou acordariam pra caçar, "pequenos animais silvestres", ela pensou num sorriso opaco. E ela ali, parada no meio de uma tarde/noite, só queria xingar. Ela devia xingar, queria muito explodir, dizer que ele era um cretino covarde, que não tinha nada a ver com as merdas dele, as merdas do passado.Ela não havia feito parte do passado, pelo menos não até os últimos meses, mas o turbilhão de coisas em sua mente a impedia, e haviam as malditas convenções, coisas que se fazem por educação, os padrões vinculados ás normas usuais, aquela educação fria que ela mantinha como uma barreira toda vez que era magoada; o olhar frio, a voz fria, os gestos calculados, ela até ficava mais elegante, ainda que ficasse menos espontânea. Esse era o seu jeito de lidar com o caos. Ela ordenava e resolvia tudo em sua vida de maneira educada e muito eficaz. “Mas não dessa vez”, pensou ela, dessa vez tudo era diferente. Ela havia encontrado alguém que mudara seu mundo, virando- o do avesso e a deixara com os cacos, era daí que vinha a persistente vontade de gritar, de perder o controle nem que fosse uma vez e xingar algum palavrão; se ela conseguisse. Ela continuava a olhar o céu que escurecia com a chegada do anoitecer, parou de ouvir os grilos e agora ouvia seus próprios pensamentos, ela passou as mãos pelo rosto que as vezes parecia esculpido com mármore, e suspirou. O que pode ser feito, quando num momento odiamos a quem mais amamos? Ela não havia se dado conta daquela importância. Coisas importantes as vezes passam despercebidas, até que começamos a tomar atitudes inconscientes em função delas, e escondidas dentro de nós, elas se mostram como atos, olhares, pressa, desespero, coração descompassado, fúria. Aquele ressentimento não era pra vida inteira e ela sabia, os homens, alguns em específico, ou somente aquele, poderiam e deveriam cometer erros, mas ser “deixada” daquela forma era algo mais do que cruel. Não saber nem o motivo a enfurecia de uma forma tão bruta, tão visceral, que a simples menção do nome dele a deixava enjoada, aborrecida e contrariada com tamanha covardia. Tanto que as vezes ela queria socar o ar onde sentia o perfume que ele usava. Mas isso, era passageiro, ela gostaria de saber o que fazer com o depois, com os sentimentos que sobrassem após toda a fúria. As vezes as pessoas se escondem por não saberem lidar com os sentimentos, as vezes fogem de si e dos outros quando esses sentimentos afloram, e negam qualquer comprometimento. As vezes, machucadas pela vida, iniciam um relacionamento frívolo na esperança frugal de obter um escape para seus fantasmas, mas sem se aprofundar no outro, alheios a tudo, apenas sentindo a diversão. Outros, são apenas seres cruéis que pensam serem boas pessoas, se apaixonam e fogem quando são correspondidos, porque não querem ser abandonados, então, abandonam primeiro. Ela pensava em todas essas possibilidades, havia gasto horas de seus dias pensando em não pensar, tentando esquecer. Em alguns momentos até sentia compaixão, mas naquele dia ela havia acordado furiosa com tamanha covardia, furiosa com a covardia do ato e da pessoa covarde. Um nó na garganta lhe atravessava o peito, e tudo que ela pensava era em xingar, bater, chorar, extravazar. Não era mais dor, era pura fúria, que ia e vinha dentro de seu coração como uma força da natureza. Então, ela fechou os olhos novamente, aquilo não tinha solução e ela não gritaria, e de qualquer forma, poderia lidar com aquilo, sabia que podia. Seguiria o plano original e resolveria... mas espera, o que não tem remédio, remediado está, não é assim? Seria educada por fim, e apenas. Tudo que ela desejava agora, com o horizonte ainda ao alcance de sua vista, numa oração muda, é que em algum lugar além daquele azul escuro, agora cravejado de estrelas, alguém tocasse com gentileza num lugar que fora tão devastado.
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