19 de junho de 2015

Um sábado dos deuses

Sábado, 13 de junho. 2015, 13h. E lá estava eu de frente pra privada, enfrentando todos os demônios. O enjôo começou rápido, como uma onda me levando pro fundo do mar. Antes de vomitar eu suei muito, tirei a blusa, e tremi de frio e calor, tudo junto. Então veio a primeira ânsia, vi meu café da manhã saindo junto com as minhas lágrimas espontâneas e o remédio cor de abóbora que fluiu nas minhas veias não tinha passado nem duas horas inteiras. Eu não sei direito o que me passou na cabeça. Eu bem gostaria de ter tido um pensamento digno de qualquer santo, mas na verdade, não tive nenhum que valha a pena reproduzir. A segunda vez foi mais devastadora. O líquido meio cor de abóbora chamado dacarbazina que providencia minha cura, cobra um preço caro. E la estava eu de novo, num profundo diálogo com a privada. O líquido quase cor de abóbora desceu (ou subiu, dependendo do seu angulo de visão), queimando meu canal nasal e minha garganta. Depois de tanta conversa fiada com o vaso, eu sentei no chão do banheiro e queria muito chorar, mas me senti tão seca diante de tudo, que me levantei, olhei meu rosto pálido no espelho e me obriguei a lavar o rosto e escovar os dentes. Olhei nos meus próprios olhos e mesmo sabendo que Deus tem sido meu escudeiro nessa guerra, não pude me furtar de pensar sobre como o câncer nos rouba certas dignidades. Mas eu tenho me recusado a baixar minha cabeça. Em qualquer momento, seja saindo do banheiro após vomitar, seja entrando ou saindo do hospital, eu mantenho minha postura de rainha digna, e me desculpem aqueles que pensam que eu deveria manter minha postura de humildade. Não sou humilde, sou verdadeira, indomável, e mesmo desesperadamente desestabilizada, passando mal, não me dobro, não fico mal humorada e não reclamo da minha vida. Talvez isso seja um tabefe na cara de alguém, e pra ser sincera, não to nem aí se ofende as pessoas os fato de eu conseguir falar do meu vômito de maneira tão aberta. De manhã cedo, ainda com remédio nas veias, a enfermeira me pediu pra pensar com carinho num cateter, eu não respondi nada audível, mas tenho certeza que meus olhos disseram: Nem a pau Juvenal. Ela continuou o discurso: Você está no meio dessa brincadeira, será que essas veias vão aguentar até o final? Mais uma vez eu apliquei o silêncio do "não argumento com pessimistas". Minhas veias vão aguentar, e sabe porquê? Porque elas são minhas, nelas está escrito: Sou Juliane. Eu aguento. É como ser um guerreiro e levar uma flechada nas costelas e ainda assim continuar lutando. E por que não? Felizmente as batalhas não têm sido solitárias, posso me gabar de ter ótimos soldados em campo, e frequentemente eu preciso de mais compreensão do que de força. Em dias como esse eu não consigo pensar com muita clareza e tão pouco me comunicar, não é egoísmo nem pragmatismo é pura desestabilidade. Não gosto de passar mal e não sei lidar bem com fato de conversar com a minha privada sobre coisas tão... Profundas que vêm das minhas entranhas. Mas estou pronta pra falar de amor (não com a privada). Ainda não estou pronta pra fazer quimioterapia. Mas faço. Passei o dia na cama, mais adormecida que a Bela adormecida. Foi um dia nulo. E enfim abri as portas do domingo com minha primeira refeição em 24h. O sentimento de estar vencendo é inconfundível e faz com que sinta realmente um membro da realeza, afinal, enfrentar a morte não é pra qualquer um.. É pra quem sabe conversar com privadas.
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