27 de março de 2017

Análise musical: Blackstar - A Obra Genialmente Definhante de David Bowie




Olá, o que fiz, não se trata de uma crítica ao álbum, ao último trabalho de David Bowie, mas sim uma análise pessoal do que senti ouvindo, lendo e assistindo aos clipes do álbum Blackstar. Eu esmiúcei cada música e fiz questão de escrever sobre elas enquanto as ouvia. David era brilhante, transcendente, de um talento ímpar, um artista sem igual, e sua última obra ficará no meu coração pra me lembrar a beleza do que eu tenho e da finitude de tudo, que também pode ser um ato belo.


Blackstar é uma canção pesada, deixa o coração pesado e com medo daquela hora derradeira. Obviamente, era a intenção do Bowie com certeza, que sua morte fosse um advento marcante. Assistindo ao clipe, existe toda uma irônia com o divino e com o humano, do quanto somos sucetíveis, finitos, ingênuos. A qualidade sonora no entanto, é arrebatadora, a música acelera seu coração, enquanto a letra te puxa pra baixo, pra uma reflexão talvez, uma agonia, uma dor. No clipe ele aparece com uma venda nos olhos, e nessa venda tem pregados uns botões, como se a nos deixar interpretar, que ele queria terminar a vida, sem olhar a realidade, talvez da doença. Ou talvez fosse difícil pra ele se enxergar doente.

'Tis a Pity She Was a Whore transmite a mesma sensação de medo que puxa pra baixo, mas eu repito, a qualidade da composição sonora é instigante e linda, intensa, é fruto de alguém na sua melhor forma, dando o melhor de si. Nesta música é como se ele acabasse de descobrir seu destino e profundamente magoado, roubado, xinga a vida, ela lhe deu muitos prazeres, mas no final ela lhe roubou, relegando ele a morte.

O início da música Lazarus, me lembra o início da música "Magic" do Cold Play. Novamente no clipe, o Bowie aparece com uma venda nos olhos e no lugar do que seria os olhos, pregados uns botões, o que ele não quer ver? Ele não quer ver a própria morte, que está perto, a espreita. No clipe ele está contando, através da letra a sua história, e o desejo intrínseco de se libertar de um corpo limitado, pra viver em liberdade "como aquele pássaro azul", ao mesmo tempo em que ele quer dizer "olha, ainda tenho muito pra fazer, deixe- me anotar pra não esquecer", e ao final, ele se encerra num armário como a dizer que não deu tempo, ele teve que ir. Eu to muito mexida com a melodia dessas músicas, é uma sensação de terror, é inebriante, mas ao mesmo tempo, genial e brilhantemente linda. Ele deveria ingerir bastante morfina.

Sue (Or In a Season Of Crime), David Bowie estava compremetido com a morte até os seus ossos. Em  mais uma melodia arrebatadora, a guitarra te leva pro fundo da alma dele, onde o medo da perda de si mesmo, escala as paredes da compreensibilidade. Quando se encara a morte, se encara o medo de deixar o mundo, as pessoas que amamos, mas fica principalmente a dúvida se com a morte, perderemos a nós mesmos.

Girl Loves Me, provavelmente são lembranças da juventude dele, arrependimentos e uma sensação de querer reviver o passado aproveitando mais do que se teve. A melodia vai te puxar pro fundo do barco em todas as músicas e até o fim do álbum, e você vai ser convidado a olhar a transparente realidade da finitude, dentro de si, é uma conversa interna, no lugar mais escuro e profundo de nós.

Dollar Days, é até agora, pra mim, a letra mais triste, por falar de esquecimento, de como somos esquecidos quando estamos em dificuldades. No "Dollar Days", existe honra, sexo para "sobreviver", e cash girls, mas quando se está na beira de qualquer abismo e caindo, o que dá a impressão é que as pessoas se contentam em assistir de longe, talvez ligando para dar condolências. A influência é esquecida "We bitches tear our magazines", só tem o esquecimento e a pessoa tentando lidar com a correnteza do que acontece. Talvez flutuando de costas na água corrente. E a melodia puxando praquela conversa íntima, num lugar escuro.

I Can't Give Everything Away é o clipe mais light, mas a melodia vem seguindo ladeira a baixo de forma brilhante, fazendo uma clara alusão a Ziggy Stardust, e as suas outras personas, ao legado de influências que ele deixou. A letra diz "eu não posso te dar tudo até o fim", e na verdade é um questionamento, do que ele já deu, e do que ele vai deixar, é uma afirmação de que o mundo está indo pra um caminho onde "With blackout hearts with flowered news", considero também como uma crítica velada aos "novos", artistas do pop, que não se importam em serem influências, eles se importam apenas em terem seus "hits", no topo das paradas, com letras de músicas que não dizem nada, com acordes sem sentido, sem história, sem sentimentos, que foi o que David deu ao mundo, letra e música com sentimento e beleza, e claro, ele não deixou escapar uma a crítica a moda, bem velada, que veio de uma "conversa" com a música anterior, "We bitches tear our magazines",  "With skull designs upon my shoes" nesta música, uma crítica velada, talvez inocente, da moda que ele tanto influênciou em vida e que não lhe serviu na hora da morte. Contudo, ele conseguiu deixar seu legado, e mesmo no pós morte, sua incrível obra, faz todo sentido.

Recomendo ouvir o álbum, inclusive a próxima postagem vai conter o álbum que puxei do YouTube.


Onde estiver, descanse em paz. 
Postar um comentário